O novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e atual bispo de Setúbal assegurou hoje que não ficaria incomodado se lhe chamassem “bispo vermelho”, epíteto que foi atribuído ao primeiro responsável da diocese, Manuel Martins, já falecido. José Ornelas disse também que a Igreja Católica tem uma posição de princípio bem clara e promete não pactuar com eventuais casos de abusos sexuais.

“A nossa posição de princípio é bem clara. É uma situação que com a qual não há possibilidade de pactuar”, disse José Ornelas a respeito dos abusos sexuais no seio da organização, admitindo, no entanto, que não pode prometer o fim destes crimes dentro da Igreja Católica.

“Gostaria muito de dizer que vamos cortar e acabar. Não o garanto, porque isso ninguém pode garantir”, disse o novo presidente da CEP, eleito para o cargo na terça-feira.

Para José Ornelas, a melhor prevenção passa pela criação de condições que permitam evitar este tipo de situações o mais possível e pela “criação de uma cultura que não tolera coisas destas”.

“Em segundo lugar, é saber como agir com coerência. Temos orientações da Igreja muito claras nesse sentido. Temos procurado aplicá-las, no sentido de uma transparência que torne claro para todos que isto não são comportamentos toleráveis. E se acontecem temos de tirar as devidas consequências e não podem continuar”, concluiu.

Quanto ao título de “bispo vermelho”, José Ornelas disse não se importar.

“Eu não sou daltónico e gosto de todas as cores. Só com os tons de cinzento é que não me sinto bem. Não me preocupa isso. D. Manuel Martins, que foi ordenado bispo de Setúbal em 1975, foi alguém que marcou o caminho da Igreja de Setúbal no Portugal novo democrático”, disse em entrevista à Lusa.

José Ornelas respondeu desta forma ao ser confrontado com o percurso de Manuel Martins, que muitas vezes se juntou à luta de trabalhadores ameaçados de despedimento e na defesa dos direitos dos mais desfavorecidos no período pós-revolucionário do 25 de Abril de 1974.

Num distrito em que o flagelo do desemprego esteve durante muito tempo acima da média nacional e com maiorias comunistas no poder autárquico, Manuel Martins, pelas suas ações em prol dos mais desfavorecidos, rapidamente transformou a contestação inicial de que foi alvo, numa atitude de respeito por parte da população e dos poderes locais, ao ponto de se ter tornado uma voz incómoda para o poder central.

O atual bispo de Setúbal e agora também presidente da CEP também já fez ouvir a sua voz em defesa dos estivadores de Setúbal contratados à jorna e, mais recentemente, para mostrar a sua indignação pelas condições de vida de dezenas de famílias que vivem no bairro da Jamaica, no Seixal, e que considerou “uma vergonha”.

Em entrevista à agência Lusa, José Ornelas não só diz não estar nada incomodado com a possibilidade de o apelidarem de “bispo vermelho”, como elogia o percurso do primeiro bispo de Setúbal e o legado de um bom relacionamento da Igreja com as diferentes estruturas de poder na região, que começou com o trabalho desenvolvido por Manuel Martins.

“Por mim, dou sempre graças a Deus pelo primeiro bispo que tivemos [em Setúbal]. Vamos ter mais bispos, mas o primeiro vai ser sempre ele. E é bom ter sido D. Manuel Martins, porque ele não se guiava por cores, mas pelo Evangelho”, disse.

“E era em nome do Evangelho que ele tinha aquela ideia de que o mundo deve ser de cuidadores e não de predadores”, acrescentou José Ornelas.

Suposta crise na Igreja é oportunidade

O novo presidente da CEP afirmou que a crise na Igreja, de que falam alguns cristãos, é uma oportunidade para “reavaliação e reequacionamento das próprias questões, das perguntas que se fazem para poder encontrar caminhos”.

“Neste tempo, se não formos capazes de equacionar isto, não significa sermos mais fiéis ao passado. As tentativas de querer voltar para trás são precisamente a negação da fidelidade que se quer aos princípios que se tem”, disse José Ornelas.

“Não me sentiria bem numa Igreja que vestisse toda a mesma camisa e que fosse toda direitinha. É natural que haja opiniões diferentes dentro da Igreja. Sempre houve e isso é salutar. Muitas vezes há vozes incómodas, mas, mais perigosa do que o incómodo das vozes dissidentes, é a unanimidade acrítica”, acrescentou o presidente da CEP e bispo de Setúbal.

 Em tempo de pandemia da covid-19, e numa altura em que se verifica o regresso às celebrações religiosas, José Ornelas, eleito para presidente da CEP na terça-feira, acredita que a grande maioria dos cristãos o vai fazer “muita responsabilidade”.

“E essa responsabilidade tem a ver precisamente com o valor da dignidade e de primazia que se dá à vida em si mesma”, disse.

Para o bispo de Setúbal, essa responsabilidade já está a ser demonstrada no País, incluindo na Diocese de Setúbal, com o apoio de todas as paróquias às pessoas e famílias mais carenciadas, mas também a famílias que tinham a vida bem organizada antes da pandemia.

“Nós temos serviços de atenção e apoio às pessoas às pessoas mais carenciadas em todas as paróquias – e disparou o número de pessoas que buscam auxílio até para o mais elementar, que é a alimentação. Isto aumentou em cerca de 25% (dados de há três semanas)”, afirmou.

“Há três semanas estávamos a assistir 17 mil pessoas – cinco mil famílias. Não somos só nós, porque nesta península, graças a Deus, há muitas outras instituições que ajudam pessoas. E são pessoas que, de um momento para o outro, se viram privadas de uma vida que tinham bem organizada”, sublinhou.

Apesar das dificuldades do momento, o presidente da CEP espera que, depois da pandemia, possa surgir uma sociedade com outros valores, mais solidários.

“O que interessa saber é que tipo de relação e que tipo de sociedade nós temos. E se a gente conseguir despertar o sentido de solidariedade de respeito e de cidadania, que de uma forma dramática experimentamos neste tempo, isto pode mudar”, disse.

O bispo de Setúbal afirmou também que o país não pode continuar confinado e sublinhou a importância da ajuda institucional e das comunidades às famílias mais afetadas pela pandemia de covid-19.

“Não podemos passar a vida inteira confinados. E há uma questão fundamental que é a solidariedade. Aquilo que se dá em termos de ajuda concreta é fundamental para a emergência. A primeira coisa de que as pessoas precisam é de comer. Mas depois há muito mais. Há uma solidariedade institucional, que é não deixar ninguém sem esses apoios”, disse José Ornelas.

“Não é simplesmente uma questão de alimentação. Há gente que não está, por exemplo, a 163285pagar as suas rendas e as suas casas. E isso é fundamental para a dignidade das pessoas. Há que encontrar esquemas criativos para permitir que essas pessoas não percam agora o barco e que amanhã possam ser autónomas”, acrescentou.

Para José Ornelas, a par da solidariedade institucional também deve haver solidariedade local e uma preocupação em “cuidar da sociedade civil”, envolvendo-a na aplicação de medidas concretas.

“É muito mais enriquecedor que as nossas instituições possam funcionar a todos os níveis, que se possa contar com a sociedade civil, para encontrar soluções de proximidade, que, não só saem mais baratas, mas são muito mais próximas, integradoras de todo um tecido social que se quer refazer e não, simplesmente, refazer o tecido económico”, defendeu o presidente da CEP.

“Com esta crise, estamos todos à espera de uma vacina, estamos todos à espera de meios de contenção. Mas agora outros valores vão surgir a seguir. O que interessa saber é que tipo de relação e que tipo de sociedade nós temos. E se a gente conseguir despertar o sentido de solidariedade de respeito e de cidadania, que de uma forma dramática experimentamos neste tempo, isto pode mudar”, disse.

A mudança, na opinião do presidente da CEP, pode ser construída a partir dos laços dos solidariedade reforçados pela vivência conjunta da pandemia.

“Há um provérbio moçambicano, uma expressão moçambicana – `o meu companheiro de sofrimento, aquele que sofreu comigo, nunca mais se esquece´. O atravessar crises juntos e atravessá-las solidariamente – não é o salve-se quem puder, mas é vamos integrar todos – dá-nos um país diferente, que eu espero que possa ser um país diferente porque um país mais fraterno e solidário”, acrescentou.

Para José Ornelas, a mudança deveria também passar pela defesa do ambiente e por um desenvolvimento económico sustentável, preocupação que também foi expressa pelo Papa Francisco, na encíclica Laudato Si” e com a introdução do novo conceito de “pecado ecológico”.

“O sistema económico que se pretenda sustentável, palavra a que fomos dando cada vez maior importância, não pode ser um sistema simplesmente consumista, ou consumidor do ambiente. Se nós não cuidarmos dele, nós acabamos com ele”, disse José Ornelas.

“Nós pusemos tantas vezes o grande assento no défice, na dívida, no PIB – não ponho em dúvida a importância e a necessidade de conter tudo isso -, agora tantas vezes isso se faz à custa da economia que os devia sustentar”, concluiu o novo presidente da CEP.

Na entrevista à agência Lusa, confrontado com a reflexão “Recomeçar e Reconstruir”, que saiu da Assembleia Plenária da CEP desta semana, em que se diz que “uma lição prioritária que da tragédia desta pandemia podemos colher é a do que ela representa como redescoberta do valor inestimável de cada vida humana”, José Ornelas considerou que não se trata de um recado ao parlamento – onde se discutem, na especialidade, vários projetos de lei sobre a eutanásia aprovados em fevereiro -, mas de reafirmar a posição da Igreja.

 “Mais do que um recado é dizer a posição que nós temos, muito clara, sobre isto. Com todo o respeito por quem pensa diferente – e isto não significa desprezo pelo sofrimento de quem realmente vive com tanta dificuldade tantas vezes uma doença sem sentido da vida -, o que nós dizemos é que a vida tem sempre a possibilidade de refazer-se até que termine na morte”, disse o novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.